Inauguração da Galeria Pontes – Olhar Ensolarado

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Data: 18 de setembro de 2008, das 19 às 22 horas.
Local: Galeria Pontes, Rua Minas Gerais, 80 – Higienópolis.

Edna Matosinho de Pontes convidou para a inauguração da Galeria Pontes com a exposição de abertura: Olhar Ensolarado – sob curadoria de Fábio Magalhães.

A galeria abriu suas portas com o melhor da arte popular brasileira contemporânea. Reuniu obras de grandes mestres como Poteiro, GTO, Antonio Julião, Manuel Eudócio, Tota, Waldomiro de Deus e outros, para mostrar a qualidade plural do universo imaginário do Brasil.

OLHAR ENSOLARADO

Fábio Magalhães

A arte que os eruditos chamam de popular é bela porque é, simplesmente isso.

A criatividade no meio popular é sempre o resultado de um saber fazer. Muitas vezes, de um primoroso saber fazer. O autor expressa com orgulho o seu ofício. Mas o artista sabe que a obra não é apenas o resultado da sua capacidade peculiar de trabalhar os materiais (a madeira, o barro, a pedra, etc.), é preciso, com eles, desenvolver a sua fantasia.

Criar, para o homem do povo, é celebrar a vida e o mundo e, ao mesmo tempo, é um modo de reinventá-los. O caráter celebrativo, de festa, é predominante na expressão popular, exalta os valores culturais do seu meio social, estabelece uma íntima relação entre o real (o cotidiano, o trivial) e o fantástico, entre o concreto e o simbólico. Celebrar é participar de modo íntimo,integrado aos acontecimentos. Vale dizer, à vida!

A reinvenção do real, inclusive da natureza e de suas forças, não é alienação, mas uma forma de expressar sua vontade de ser, de mover-se sensualmente no mundo, de sonhar o Brasil.

Para o artista popular, criar é um ato integrador, contra a exclusão social, de afirmação de identidade, de luta pela vida. Mas deve ser um ato prazeroso.  E é também, arma poderosa no eterno combate do bem contra o mal, de anjos e demônios que se enfrentam para estabelecer harmonia e justiça ou conflito e perdição.

A arte popular não procura o status da arte erudita. São os historiadores e os críticos que adjetivaram a arte (acadêmica, moderna, contemporânea ou popular). A mão do povo segue ritmo próprio e, muito embora não persiga nenhum vanguardismo de linguagem, dificilmente se expressa de modo anacrônico. Mantém o frescor de reinventar-se todos os dias, nas praças, nos mercados – no meio do povo. A arte popular revela, quase sempre, uma coletividade emocional, uma estética partilhada, viva e atual.

No mundo no qual vivemos, de exaltação da individualidade, a arte erudita não contraria essa regra. O artista plástico persegue o sucesso pessoal (este sim, seu principal motor social) e submete-se às regras impostas  pelo mercado que é o seu grande juiz. Portanto não é difícil compreender porque uma expressão artística que não reivindica nada para si fique de fora, marginalizada, como é o caso da arte popular. Mesmo assim, o movimento internacional de arte moderna foi beber na fonte da criatividade popular. No Brasil os artistas modernistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Cícero Dias e tantos outros incorporaram valores da estética popular para renovar a linguagem artística de seu tempo. Também os principais intelectuais, formadores  do conceito de modernidade no Brasil como Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Sergio Milliet e Mario Pedrosa, apenas para mencionar alguns, voltaram sua atenção à produção artística popular e escreveram sobre a vitalidade, o engenho e a beleza dessa expressão.

Na década dos anos 1960, a arte popular assumiu grande prestígio no Brasil entre os colecionadores de arte moderna, e foi nesse período que as mais importantes galerias de arte incorporaram artistas de expressão popular no calendário de suas exposições. Logo mais surgiram as primeiras galerias inteiramente voltadas a essa produção artística.

A Galeria Pontes, recém inaugurada, dedica-se exclusivamente à arte popular. É o resultado do olhar amoroso, ensolarado de Edna Matosinho de Pontes que percorreu todo o Brasil à procura de peças que expressassem com inventividade a magia do povo brasileiro e a força da nossa natureza.

Na escolha dos artistas e das peças, Edna deixou a paixão no comando, mas procurou sempre o horizonte da autêntica criatividade. E assim, com paciência e a necessária obstinação, Edna Matosinho de Pontes reuniu um acervo rico e diversificado. As obras são originárias das mais distantes regiões brasileiras – foram produzidas na floresta amazônica, no pantanal de Mato Grosso, no cerrado de Goiás, no vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, no sertão de Pernambuco, enfim, vieram do vasto mundo que compõe o nosso país. O conjunto forma um panorama da alma brasileira, apresenta um Brasil sonhado pelo seu povo, com exuberância, mística e sensualidade.

A Galeria Pontes é, em si mesma, ensolarada, um arco-íris. Um espaço de muita vitalidade. Energia que não para de brotar, porque a arte popular é germinal, isto é, plena de vida.

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