O luxo da arte de raiz

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Reportagem da Revista Kaza

Desde 2008, quando abriu suas portas em São Paulo, num casarão tombado pelo patrimônio histórico, a Galeria Pontes exibe a riqueza do imaginário brasileiro, com o melhor dos grandes mestres da nossa arte popular

Por Claudia Ferraz

Poteiro, GTO, Antonio Julião, Manoel Eudócio, Tota, Waldomiro de Deus, Maurino de Araujo, Bajado, Adir Sodré, Miguel dos Santos, Sil, Marinaldo… Uns, autores de uma arte popular em seu sentido mais tradicional; outros, de uma considerada mais erudita. É este o foco que estimula Edna Matosinho de Pontes, à frente da Galeria Pontes. Missão, aliás, que nasceu de uma rota não programada em sua trajetória pessoal. “Sou psicóloga, atuei com pesquisa de mercado qualitativa, mas também como psicanalista. Quando decidi trabalhar com algo que me desse realmente muito prazer, abrir uma galeria de arte popular surgiu como escolha natural, porque desde muito cedo tive interesse por arte. Fui comprando quadros e esculturas à medida que gostava e que podia. Passei a adquirir arte popular nos anos 1970, quando as esculturas da Conceição dos Bugres, artista já falecida do Mato Grosso, foram expostas na Bienal de São Paulo, por iniciativa de Humberto Espíndola. Um dia percebi que me tornara uma colecionadora de arte”, conta Edna.

Apaixonada também por viagens, ela sempre visitou artistas pelo Brasil afora. Conheceu Samico, em Olinda, Mestre Nuca, em Tracunhanhém, Manuel Eudócio, em Caruaru, J. Borges, em Bezerros, Miguel dos Santos, em João Pessoa, Mestre Cardoso, em Belém e Jotacê, na Chapada Diamantina. “Quando decidi abrir a galeria, passei a viajar de forma mais sistemática, Mas não tinha nenhuma experiência sobre o que era ou não vendável, era guiada pelo que gostava e pelos artistas que admirava, contando também com a ajuda de uma grande amiga nessa área, a Lurdinha Vasconcelos, do Sobrado 7, em Olinda”, ressalta.

O popular erudito

Um dos estrelados no acervo da galeria, fruto não só da paixão, mas da intensa pesquisa de Edna sobre sua obra, é o pernambucano Gilvan Samico – mestre da gravura e artista de sofisticação impressionante, em especial por expressar o romanceiro popular nordestino. “Na verdade, Samico é um erudito. Bebe na fonte dos artistas e do imaginário popular. Eu o incluo por seu marcante traço de brasilidade”, justifica Edna, sem deixar de citar outros nomes que se enfileiram em seu acervo como arte de raiz de primeira grandeza; Dalton Costa, que fez uma individual na Pontes em 2009, o goiano R. Godá, os ceramistas Miguel dos Santos e Gina Dantas, e Elieni Tenório, artista do Amapá, para citar alguns.

Bom programa cultural, a agenda da Pontes sempre tem surpresas. Está nos planos uma exposição de Francisco Galeno, artista do Piauí que pinta formas geométricas sobre madeira. E em junho, o espaço promete intensificar sua atmosfera plural com a inclusão do conceito arte-cidadania da badalada coletiva Roupa de Domingo, em iniciativa do grupo Galeria Central. “Será com arte popular”, anuncia Edna Matosinho, que celebra o fato de ver o acervo da galeria editado em livro. “É o Arte Popular Brasileira, volume 2, da Editora Décor”, sinaliza. A iniciativa, por sinal, reforça (e atualiza) o que Fábio Magalhães registrou na inauguração da galeria, quando fez a curadoria da coletiva Olhar Ensolarado. “…O conjunto forma um panorama da alma brasileira, apresenta um Brasil sonhado pelo seu povo, com exuberância, mística e sensualidade. A Galeria Pontes é, em si mesma, ensolarada”. Vale conferir.

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